MESTRE, EU NÃO SEI


MESTRE, EU NÃO SEI
Discípulo de Lanto
Canal: Maria Silvia Orlovas
02/04/2014

Eu era um menino quando fui para o Templo. Eu vinha de uma aldeia muito simples e acabei chegando nesse Templo, onde eu teria grandes aprendizados. E eu sabia que era um privilégio pra um menino, estudar, viver, nesse monastério.

Mas assim que eu cheguei, era um momento de muita confusão, porque estava acontecendo uma reforma... Uma ala estava sendo destruída e uma outra ala seria construída.

E eu cheguei num momento, onde eu não tinha um professor, onde eu não era pupilo de ninguém.
Porque todas as pessoas estavam ocupadas.

Os que eram pequenos, pequenos alunos como eu, já estavam com as suas tarefas destinadas. Os Professores, Mentores (professores mais elevados), cada um fazendo a sua função. E eu cheguei no meio dessa confusão, sem saber onde ficar, onde dormir, onde comer, ou no que trabalhar.

E foi o sentimento mais perdido, mais triste, mais de falta, de angústia... que eu senti.

Qual é o meu lugar? O que eu tenho que fazer?

E, eu procurava as pessoas... E muitos tinham feito votos de silêncio.
E estavam cansados, sujos com pó, carregando pedras...
E eu sentia vergonha de perguntar pra eles.

O que eu tenho que fazer? Onde eu vou ficar? Onde eu vou dormir?
Onde eu vou comer? O que é certo? O que é errado?

E eu fiquei perambulando de um lugar pro outro. E chorei muito, grande sofrimento, quis desistir.
Mas, uma vez ali dentro. Uma vez tendo sido deixado ali, eu sabia que aquele era o meu caminho. Então, eu fui chegando nas pessoas e fazendo o que elas faziam. Eu comecei a imitar.

Quando eu resolvi que eu iria transformar minha vida. Quando eu resolvi que eu iria parar de chorar e procurar respostas... Eu resolvi que eu tinha que trabalhar, porque era o que estava a minha frente. Era o que eu podia fazer.

E se ninguém me dava atenção, se ninguém tinha tempo pra mim... Se ninguém me ensinava um ofício, se ninguém achava que eu merecia algum tipo de cuidado especial, então eu passei a achar que realmente eu não merecia.

E como eu tinha que sobreviver, eu tinha que fazer parte daquele núcleo, eu me despojei dos meus desejos, das minhas referências... das necessidades que eu tinha em me sentir seguro, em me sentir orientado...

Eu me despojei das respostas, eu queria que as pessoas me respondessem. Eu queria que o meu orientador ali, que ele se manifestasse. E que ele dissesse pra mim: “Eu vou cuidar de você, está tudo bem e você deve fazer isso...”. Era o que eu mais queria.

E eu passei semanas buscando essa pessoa. Eu passei semanas tentando descobrir quem era o meu orientador, quem iria me cuidar, quem iria me ensinar, quem iria me dar as resposta. E um passava pro outro e o outro passava para um. E eu acabava sempre sozinho.

E, muitas vezes que eu chegava no refeitório, eu não sabia bem os horários, eu não sabia como era tocada a campainha, quem chegava primeiro, onde se sentava... Muitas vezes, eu comia apenas aquilo que sobrava. Eu passei por muitas dificuldades.

E aí, como eu era o último, um dos últimos a ficar ali me alimentando, eu ficava em silêncio. Eu comia e muitas vezes, eu ali, lavei a louça. Porque eu sobrava com aquele monte de pratos, então eu ia ajudar na cozinha.

E como eu queria falar das minhas coisas, as pessoas só colocavam os dedos nas bocas e...
O gesto era: Silêncio.

E eu ficava em silêncio, ia lavando a louça. Lavando, lavando, lavando, ajudando, guardando...
E esse foi se tornando o meu primeiro hábito: Manter o silêncio. E ajudar quando eu podia ajudar.

E aí, de um hábito perdido ou de uma situação sem controle, como foi durante muito tempo...
Arrumar a louça, ajudar, lavar, cuidar da cozinha, se transformou na minha missão naquele momento.

Então, eu já acordava pensando que eu iria ajudar na primeira refeição do dia.
E que eu lavaria a louça com os outros. E eu fui ficando na cozinha, sempre no silêncio.

E eu pensava comigo mesmo: Meu Deus do Céu, que gente silenciosa, não sei se eu vou aguentar ser Monge!

Porque eu tenho que falar! Eu tenho que ouvir o que as pessoas pensam ao meu respeito. Eu tenho que ouvir o que as pessoas podem me ensinar sobre a minha história. Eu tenho que ouvir aquilo que as pessoas possam me ensinar ou compartilhar sobre as histórias delas.

Eu olhava pra aquela situação que eu estava vivendo e eu pensava: Não vou aguentar! Eu não vou aguentar! Eu não sei... Não sei aguentar... Não dá pra aguentar!

E aí, já tinha mais uma pilha e eu me jogava a lavar aquela louça, a cuidar e arrumar.
E eu fui aprendendo a minha segunda lição: Eu tinha que ser útil. Me sentir útil.

Porque, todas as vezes que eu estava desocupado, vinha o sentimento, a angústia, a necessidade de perguntas, a necessidade de respostas.

E quando eu estava trabalhando, quando era útil, quando eu ajudava... Eu me ocupava, eu me sentia melhor. Eu me sentia participando daquela engrenagem. Eu não era um ponto perdido da engrenagem. Eu era parte do grupo.

Trabalhar. Fazer. Ajudar. Estar ocupado. Ser útil.

Aquilo acalmou muito o meu coração.
Eu comecei a me acostumar mais com o silêncio.

Eu comecei a aceitar que eu não teria respostas pra tudo.
Eu comecei a aceitar que as pessoas poderiam não ter respostas.
E que eu poderia não ter perguntas.

Comecei observar que a minha mente estava doente com tantas perguntas. Comecei entender que aquilo era uma ansiedade. E comecei a ficar em paz, com tantos pratos e com tanta louça.

E um dia, já fazia muito tempo que eu estava na cozinha, o mestre chegou pra mim e disse assim:

– Hoje você vai fazer a comida. 

E eu disse:

– Mestre, eu não sei.

E quando eu disse isso, ele já tinha ido embora.

E aqueles que estavam na cozinha, os cozinheiros e que já faziam tantas coisas. Pessoas que eu já conhecia, com o olhar, com a convivência. Que eram até meus amigos, porque alguns no meio dessa minha jornada, já sorriam pra mim. Já tinham um olhar carinhoso, já sabiam quem eu era. E aquele lugar, no canto da pia, onde eu ficava... Já era o meu lugar.

E eu fiquei muito desesperado porque, imagine um aprendiz ser o responsável pela comida.

E eu disse que eu não sabia.
E eu achei que o meu limite deveria ser respeitado.
Como muitas vezes nós fazemos.

Eu queria que o meu limite fosse respeitado. Que as pessoas não exigissem mais de mim do que eu estava dando. Que a vida não me pusesse em situações que eu não pudesse cumprir. Eu queria que o meu limite fosse respeitado. Eu queria ter a minha zona de conforto, o meu silêncio, a minha paz, pra fazer aquilo que eu tinha que fazer.

E imaginem que isso aconteceu. Esse vulcão de pensamentos na minha mente. Nos cinco minutos seguintes daquela ordem, pra que eu fizesse a comida.

E, olhando aquelas panelas que eram quase do meu tamanho... Eu era um rapaz franzino, pequeno. Pra alcançar a panela eu tinha que subir num banquinho.

Só que eu já tinha visto aqueles homens cozinharem tantas vezes. Eu já trabalhava na cozinha há muito tempo. E eu tinha todo aquele conhecimento dentro de mim, mas, eu não tinha a responsabilidade de fazer nada daquilo.

E eu não queria ultrapassar o meu limite. Mas fui obrigado.

E quando eu vi... Não sei se movido por medo. Não sei se movido por um impulso espiritual maior. Não sei se movido pelas forças do meu destino. Eu estava ali: Colocando água, cozinhando arroz e preparando os legumes

E como acontecem com os Milagres... O fogo estava aceso, porque alguém ascendeu. Os legumes estavam picados, porque todos os que ali trabalhavam comigo na cozinha, fizeram a sua função. O azeite cheirava, o refogado com cebolas, porque alguém já tinha colocado as cebolas na panela...

E eu fui apenas me conduzindo e sendo conduzindo. Sem saber a hora que eu comandava e a hora que eu era comandado pela engrenagem que já funcionava.

E quando a comida ficou pronta, e o sabor era agradável, como o esperado... Os meus olhos se encheram de lágrimas, porque eu sabia que eu tinha participado. Eu não tinha feito tudo isso. Eu fazia parte de um todo, de um grupo, de uma engrenagem que trabalhava junto.

E, acho que foi isso que o Mestre quis me mostrar. Que eu não precisava dizer Não.
Eu até poderia dizer Não, mas, eu não precisava dize Não.

Porque, não importava muito a minha consciência se eu sabia ou não realizar aquela tarefa.
Aquela tarefa me cabia e eu deveria estar aberto a aquela tarefa.

E é isso que eu venho dizer a vocês hoje.
Não acreditem de uma forma tão intensa nos seus limites.
E não se achem tão poderosos com as suas vitórias.

Porque, assim como a cozinha, a vida é um grande palco. Cheia de experiências e missões, e desafios, e pessoas, e fantasmas, e medos, e angústias, e erros, e indecisões, e solidão.

Assim como é cheia de oportunidades e de aprendizados.

Abram-se ao destino.
Permitam que as situações cheguem até vocês sem tantas resistências.
Não resistam ao Mal, não resistam ao Bem.

Tenham força, luz e equilíbrio para viver as coisas que aparecem para vocês viverem.
E tudo se tornará incrivelmente mais fácil.

As pessoas boas virão para ajudar. E as amizades e os relacionamentos que você construiu, às vezes com uma troca de olhar, com uma gentileza, com um carinho, com uma boa vontade... voltarão pra vocês.

E nem tudo precisa ser falado.
Nem todas as perguntas merecem ou precisam de respostas.

Nós Monges, sempre acolhemos o silêncio. Porque o silêncio faz bem.
O silêncio ajuda a mente a repousar. Serena as respostas.

O meu Mestre, era o Mestre Lanto. Figura sagrada que eu sigo até hoje, com profundo respeito e com profundo amor. Eu sou só um aprendiz.

Ele dizia isso pra mim:

– Eu vejo Deus em você. Da mesma forma que você vê Deus em mim.

E aprendi muito, com aquele homem tão simples.

E é essa a minha oferta à vocês. Uma pequena história, de uma vida que não foi registrada em nenhum livro, em nenhum conto. A vida de um homem simples, que viveu na cozinha.

E hoje, eu entendo que precisava daquela simplicidade.

E eu sei que a Alma das pessoas precisa muito da simplicidade.
Precisa das perguntas que não têm respostas.

A Alma das pessoas, assim como a minha Alma, sempre precisa do silêncio.
Para poder ouvir, para poder sentir a Presença de Deus.

Namastê à todos.

Namastê.

Por favor, respeite todos os créditos ao compartilhar
http://stelalecocq.blogspot.com.br/2014/04/mestre-eu-nao-sei.html
Áudio: ALPHA LUX 12 ANO 16
Fonte http://mariasilviaporlovas.blogspot.com.br/2014/04/mestre-eu-nao-sei.html
Mensagem enviada por Silvana Toti
Grata Sil!

Extraído de: http://stelalecoqc.blogspot.com

Postagens mais visitadas deste blog

CÍRCULO DE LUZ E AMOR DE MARIA - MENSAGEM RECEBIDA AOS 07.03.2017 POR JANE RIBEIRO

DEZESSEIS SINAIS DE QUE VOCÊ É UM CURADOR

O Livro do Conhecimento: As Chaves de Enoch®